Quinta é dia de pergunta e resposta aqui no forum. Toda semana publico uma resposta mais elaborada sobre perguntas enviadas por alunos ao meu email. Se deseja sua pergunta respondida aqui, por favor, me envie pelo email rodrigog@eteachergroup.com
Então, Jâmnia (Yabne; Yavneh) é primeiramente mencionado em escritos rabínicos pelos menos 1 século após o tal evento e a melhor descrição está no Talmud Gittin 56b.De acordo, com a teoria tradicional espalhada por Heirich Graetz em meados de 1870 os relatos rabínicos falam de um debate entre os rabis sobre ALGUNS livros bíblicos que eram considerados impuros por uns e não por outros (Cantares, Eclesiastes e se não estou enganado depois Crônicas e Ester) - ver passagem na Mixná Yadaim 3:5. Então Graetz baseado em passagens como essas que mencionam de decisões acerca de livros da bíblia e da passagem do Talmud Gittin sobre Jâmnia (cidade perto de Tel Aviv hoje) sugeriu que o Cânon foi "definido" num CONCÍLIO EM JÂMNIA...
Mas até onde sabemos não haviam concílios rabínicos nesse período como é o caso do Cristianismo principalmente no II-IV século (onde questões doutrinárias foram definidas). Hoje mais e mais estudiosos crêem numa pluralidade "canonica" nas várias seitas Israelias nos primeiros séculos da nossa era Os estudos de Jack Lewis e Jacob Neusner mostram que o cânon da Bíblia Hebraica conforme nós temos hoje foi aceito pela maioria dos Judeus apenas após o IV ou talvez V século.
No entanto não devemos ignorar a influência que o Cristianismo (e outras seitas Israelitas) tiveram na formação do Judaísmo rabínico (e virse versa). por exemplo, recentemente um estudioso de Qumran sugeriu no volume de 50 anos após Qumran (em breve consigo essa bibliografia) que a estrutura dos livros da Bíblia Hebraica em contraste com a estrutura do Antigo Testamento (Cristao) é diferente por razões teológicas discutidas nos primeiros séculos do Cristianismo. Por exemplo, o livro de Daniel não é considerado parte dos PROFETAS, possivelmente porque os Cristãos o usava muito para argumentar o messianismo de Jesus (esp. Daniel 9). Assim, ao remover o livro de Daniel da categoria de profeta, o canôn Judeu sugere que ele não deve ser lido como uma literatura que prevê o futuro mas que olhar para o passado. Estrutura e categorização de literatura bíblical nesse caso é em si uma mensagem teológica.
O blog ligado ao Israel Institute of Biblical Studies do eteachergroup -http://israelbiblicalstudies.com/pt/course/jewish-background-new-testament/
Thursday, April 27, 2017
Thursday, April 20, 2017
Reflexões sobre a Diáspora ontem e hoje
Quinta é dia de pergunta e resposta no fórum do Eteacher. Toda semana publico uma resposta mais elaborada de perguntas enviadas por alunos ao meu email. Extendo aqui algumas das perguntas e respostas das interações com meus alunos do Eteacher - Contexto Judaico do Novo Testamento.
Se deseja conhecer mais sobre esses assuntos, matricule-se em nossa turma click aqui -Ou se quiser sua pergunta respondida aqui, por favor, coloque sua pergunta abaixo e tentarei responder em uma semana.
Hilel foi mais aceito que Shamai possivelmente por sua flexibilidade em interpretar a Torá. Sugerimos que isso ocorreu provavelmente porque ele era da Diáspora. Para refletir...
(a) Em sua opinião um maior contato com estrangeiros (gentios) contribuiu ou não para interpretação de Hilel? Se contribuiu, para melhor ou pior?
(b) Paulo também era da Diáspora (Tarso - Cilícia) e aprendeu sobre os auspícios de um seguidor de Hilel (Gamaliel). Teria isso contribuído para sua visão mais flexível acerca da Torah e inclusão dos Gentios no Cristianismo?
(c) Jesus cresceu e viveu na Galileia, local de maior exposição estrangeira que Jerusalém (aprendemos mais sobre isso no Curso EXPLORANDO A TERRA DA BÍBLIA), como isso afetou o DNA de seus ensinos acerca da universalidade do reino de Deus?
Minhas observações
É fato que vários Israelitas na época de Jesus não queria se relacionar com Gentios. Visto que no passado, conforme os profetas da Bíblia Hebraica revela, a relação entre Israelitas e Gentios resultou em idolatria e exílio. Assim, no período do segundo templo (c.600 a.C. - 100 d.C) muitos Israelitas não se sentiam confortáveis em arriscar um outro exílio. Ou seja, eles temiam que ao relacionarem com Gentios eles se "contaminariam" e desagradariam a Deus. Outros Israelitas, principalmente os da Diáspora enxergavam o tema diferentemente e eles mantinham certo contato com os Gentios. A literatura de Qumran, o Novo Testamento e a Pseudoepígrafa atestam que o tema era bem sensível na época.
Nos Manuscritos do Mar Morto a tendência percebida é de um afastamento dos Gentios. No Novo Testamento percebemos atitudes nacionalistas por parte dos discípulos e alguns outros Israelitas, que não se davam bem com Samaritanos nem Romanos ou Gentios (e.g. Pedro e Cornélio em Atos 10). O medo de relacionar com os Gentios não significava que todos os Israelitas não compartilhavam suas crenças religiosa com estrangeiros. Em Mateus 23 encontramos Jesus afirmando a iniciativa dos Fariseus em viajar e ensinar a Torá para Gentios, convertendo-os em prosélitos. No Novo Testamento há vários casos de Gentios que aceitaram o Deus de Israel, vários deles centuriões como Cornélio (Mat 8:5-13/Luc 7:1-10; Gerasenos? - Luc 8:26-39; mulher de Tiro Mat 15:21-28).
De acordo com o Talmude (ver aula 29 ou para meus alunos 22 – Judeu entre as Nações e os Intermediários Gentios Prosélitos) para os Fariseus o problema não era se relacionar com Gentios, mas como esse contato deveria ser feito. O ponto de debate era até onde um Israelita deveria ir em contato com um Gentio, ou melhor, o quanto um Gentio deveria se conformar às práticas da Torá. Quando esse contato se tornava impuro e perigoso?!
A preocupação em se expor ao desconhecido tem sido motivo de reflexão da religião bíblica na época de Jesus e hoje. Os movimentos nacionalistas Europeu e os debates sobre a inclusão de refugiados mulçumanos mostram que o contato com o estranho ainda causa muita preocupação à sociedade Ocidental. Na linguagem de Mircea Eliade essa interação ou dicotomia é chamada de sagrado e profano, e nas palavras da antropóloga religiosa Mary Douglas, de pureza e perigo. Entender como harmonizar esses domínios e assim marcar o território do sua comunidade é um assunto perene que abre margem para muitas discusões.
Como você acha que Paulo reagiria a inserção de imigrantes e de outras religiões no Ocidente? Como a mensagem de uma salvação universal impactou seu (Paulo) relacionamento com estrangeiros? E como essa mesma mensagem deveria moldar políticas Cristãs hoje em dia? O que você acha?
Coloque seu comentário abaixo
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Hilel foi mais aceito que Shamai possivelmente por sua flexibilidade em interpretar a Torá. Sugerimos que isso ocorreu provavelmente porque ele era da Diáspora. Para refletir...
(a) Em sua opinião um maior contato com estrangeiros (gentios) contribuiu ou não para interpretação de Hilel? Se contribuiu, para melhor ou pior?
(b) Paulo também era da Diáspora (Tarso - Cilícia) e aprendeu sobre os auspícios de um seguidor de Hilel (Gamaliel). Teria isso contribuído para sua visão mais flexível acerca da Torah e inclusão dos Gentios no Cristianismo?
(c) Jesus cresceu e viveu na Galileia, local de maior exposição estrangeira que Jerusalém (aprendemos mais sobre isso no Curso EXPLORANDO A TERRA DA BÍBLIA), como isso afetou o DNA de seus ensinos acerca da universalidade do reino de Deus?
Minhas observações
É fato que vários Israelitas na época de Jesus não queria se relacionar com Gentios. Visto que no passado, conforme os profetas da Bíblia Hebraica revela, a relação entre Israelitas e Gentios resultou em idolatria e exílio. Assim, no período do segundo templo (c.600 a.C. - 100 d.C) muitos Israelitas não se sentiam confortáveis em arriscar um outro exílio. Ou seja, eles temiam que ao relacionarem com Gentios eles se "contaminariam" e desagradariam a Deus. Outros Israelitas, principalmente os da Diáspora enxergavam o tema diferentemente e eles mantinham certo contato com os Gentios. A literatura de Qumran, o Novo Testamento e a Pseudoepígrafa atestam que o tema era bem sensível na época.
Nos Manuscritos do Mar Morto a tendência percebida é de um afastamento dos Gentios. No Novo Testamento percebemos atitudes nacionalistas por parte dos discípulos e alguns outros Israelitas, que não se davam bem com Samaritanos nem Romanos ou Gentios (e.g. Pedro e Cornélio em Atos 10). O medo de relacionar com os Gentios não significava que todos os Israelitas não compartilhavam suas crenças religiosa com estrangeiros. Em Mateus 23 encontramos Jesus afirmando a iniciativa dos Fariseus em viajar e ensinar a Torá para Gentios, convertendo-os em prosélitos. No Novo Testamento há vários casos de Gentios que aceitaram o Deus de Israel, vários deles centuriões como Cornélio (Mat 8:5-13/Luc 7:1-10; Gerasenos? - Luc 8:26-39; mulher de Tiro Mat 15:21-28).
De acordo com o Talmude (ver aula 29 ou para meus alunos 22 – Judeu entre as Nações e os Intermediários Gentios Prosélitos) para os Fariseus o problema não era se relacionar com Gentios, mas como esse contato deveria ser feito. O ponto de debate era até onde um Israelita deveria ir em contato com um Gentio, ou melhor, o quanto um Gentio deveria se conformar às práticas da Torá. Quando esse contato se tornava impuro e perigoso?!
A preocupação em se expor ao desconhecido tem sido motivo de reflexão da religião bíblica na época de Jesus e hoje. Os movimentos nacionalistas Europeu e os debates sobre a inclusão de refugiados mulçumanos mostram que o contato com o estranho ainda causa muita preocupação à sociedade Ocidental. Na linguagem de Mircea Eliade essa interação ou dicotomia é chamada de sagrado e profano, e nas palavras da antropóloga religiosa Mary Douglas, de pureza e perigo. Entender como harmonizar esses domínios e assim marcar o território do sua comunidade é um assunto perene que abre margem para muitas discusões.
Como você acha que Paulo reagiria a inserção de imigrantes e de outras religiões no Ocidente? Como a mensagem de uma salvação universal impactou seu (Paulo) relacionamento com estrangeiros? E como essa mesma mensagem deveria moldar políticas Cristãs hoje em dia? O que você acha?
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Sunday, April 9, 2017
Thursday, March 30, 2017
Lavar as vestes no sangue do Cordeiro
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respondida aqui, por favor, coloque sua pergunta abaixo e tentarei responder em
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Versões bíblicas diferem em sua leitura de
Apocalipse 22:14, "lavar as vestes” ou “lavar as vestes no sangue do
Cordeiro".
O texto em Grego não possui a expressão "no
sangue do cordeiro", conforme o texto abaixo:
Μακάριοι οἱ πλύνοντες τὰς στολὰς αὐτῶν, ἵνα ἔσται ἡ ἐξουσία αὐτῶν ἐπὶ τὸ ξύλον τῆς ζωῆς καὶ τοῖς πυλῶσιν εἰσέλθωσιν εἰς τὴν πόλιν.
Por causa da semelhança de imagem- lavar as
vestes - encontradas aqui e em Apoc 7:14, alguns intérpretes dizem que o evento
é o mesmo, ou seja, o lavar a veste em Apoc 22:14 deve ser também no sangue do
cordeiro.
Outros não exergam da mesma forma e acham que os eventos são distintos. Baseado em alguns textos de Qumran tem sido sugerido que Apoc 7 é uma alusão a última batalha entre as forças do bem e do mal, por isso a referência a tribulação e sangue. Enquanto isso, as vestes em Apoc 22 são pós batalha para celebração da ceia da vitória. As roupas nesse último evento deveriam estar limpas, sem sangue.
O Apocalipse no entanto traz uma linguagem
aparentemente ambígua, onde SANGUE LAVA. Isso deve ser entendido à luz dos
rituais do santuário, onde o sangue era usado como agente de purificação. Isso
é complementado pela ambiguidade do ritual que fazia da morte (do sacrifício) a
vida (do ofertante).
Thursday, March 23, 2017
A arca da aliança em 2 Crônicas 5:10 não menciona o maná e a vara de Arão, por que?
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אֵ֚ין בָּֽאָר֔וֹן רַ֚ק שְׁנֵ֣י הַלֻּח֔וֹת (Texto Massorético)
De acordo com a Bíblia Hebraica, apenas as tábuas dos mandamentos estava dentro da arca. O maná e a vara de Arão estavam perante o testemunho (Êxod 16:33-34, Núm 17:10). A expressão em Hebraico usada nos dois textos é a mesma ( לפני העדות למשׁמרת). Perceba que no texto de Hebreus 9 o altar de incenso é colocado junto com a arca da aliança, enquanto que a Bíblia Hebraica em Êxodo 30:6 o coloca fora do véu que divide o lugar santo do santíssimo.
Na descrição que o Cronista faz da construção do Templo em Jerusalém por Salomão, é mencionado que dentro da arca da aliança estava “apenas as duas tábuas” dos 10 mandamentos. Mas o livro de Hebreus no Novo Testamento afirma que além das tábuas a arca continha um pote de maná e a vara de Arão que havia florescido. De onde o autor de Hebreus tirou essa informação?
Em 2 Macabeus e 2 Baruque o altar de incenso é
associado com a arca da aliança. Além do mais, o tema de Hebreus 9 parece ser
de juízo o que indicaria uma referência ao dia da expiação (Yom Kippur). Nesse
dia Arão deveria aspergir sangue de expiação sobre o altar de incenso e sobre a
arca da aliança (Lev 16 - LXX).
Assim, parece que o autor depende de tradições
Israelitas do segundo Templo para construir sua mensagem sobre o templo
Israelita.
(Fonte:
Harold W. Attridge, The Epistle to the Hebrews, Hermeneia. Fortress:
Minneapolis, 1989)
Thursday, March 16, 2017
O que seria a fogueira mencionada em 2 Crônicas 16:14 e 21:19?
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12 No trigésimo nono ano de
seu reinado, Asa foi atacado por uma doença nos pés. Embora a sua doença fosse
grave, não buscou ajuda do Senhor, mas só dos médicos. 13 Então, no quadragésimo
primeiro ano do seu reinado, Asa morreu e descansou com os seus antepassados. 14 Sepultaram-no no túmulo
que ele havia mandado cavar para si na Cidade de Davi. Deitaram-no num leito
coberto de especiarias e de vários perfumes de fina mistura, e fizeram uma
imensa fogueira em sua honra. (2 Crônicas 16:12-14)
18 Depois de tudo isso, o Senhor afligiu Jeorão com uma doença
incurável nos intestinos. 19 Algum tempo depois, ao
fim do segundo ano, tanto se agravou a doença que os seus intestinos saíram, e
ele morreu sofrendo dores horríveis. Seu povo não fez nenhuma fogueira em sua
homenagem, como havia feito para os seus antepassados. 20 Jeorão
tinha trinta e dois anos de idade quando começou a reinar, e reinou oito anos
em Jerusalém. Morreu sem que ninguém o lamentasse, e foi sepultado na Cidade de
Davi, mas não nos túmulos dos reis. (2 Crônicas 21:18-20)
Por duas vezes no livro de Crônicas é mencionado um ritual de queima num
contexto fúnebre. Apesar de outros textos mencionarem tal prática (queima no
funeral do rei – Jeremias 34:5), a única vez que esse ritual é realizado a um
rei específico em toda Bíblia é ao rei Asa de Judá (2 Cr 16:14). Em 2 Cr 21:19
é mencionado que o ritual não foi realizado no funeral do rei Jeorão. O que
seria essa queima?
O texto não deixa tão claro. Com certeza não era um ritual de cremação pois é deixado claro que o corpo de Asa foi sepultado. É bem possível que a queima tenha sido de incenso ou aromas. O verso 14 contém uma série de 4 palavras que enfatiza perfume (בשמים וזנים מרקחים במרקחת – bálsamos variados, especiarias mistas de óleos [aromáticos]). Parece que essa é a compreensão da maioria dos tradutores bíblicos, haja vista que os eles colocam no texto de Jeremias 34:5 o incenso (“queimou incenso em honra” – NVI) apesar de no Hebraico haver apenas o verboשרפ - queima.
Relacionado a queima, possivelmente de perfumes, Sara Japhet, comentarista
Israelita moderna, nota que o nome Asa é possivelmente Aramaico e seria então o
único dos reis de Judá com uma nome não em Hebraico. Em Aramaico seu nome
poderia significar “mirra” e é possível que seu nome deu oportunidade ao
escritor de Crônicas de interpretar sua história com uma grande festa com
perfumes como descrito em 2 Crônicas 16:14. Ela também lembra que há uma
possível conexão com queima no texto de Jeorão. O verso 20 traz a expressão וילך בלֹא חמדה, “e foi sem desejo,” (“Morreu sem que ninguém o lamentasse” - NVI) que na literatura rabínica às vezes a palavra חמדה é traduzida como “fogo.”
Por que então o ritual de queima (provavelmente de incenso) foi realizado
para Asa e não para Jeorão? O texto não explica. Ambos os reis estão doentes
(Asa no pé e Jeorão na barriga), desobedeceram ao Senhor e trouxeram
calamidades aos Israelitas. O curioso é que no caso de Jeorão, Asa é visto como
uma figura positiva e temente ao Senhor (21:12). O profeta Elias avisa que o
rei não havia andado nos retos caminhos dos pais Josafá e Asa. Assim como
Jeorão negou os caminhos do Senhor, o povo nega o ritual em homenagem realizado
a seu pai Asa. Novamente, a razão não é dada pelo Cronista.
(Fonte: Sara Japhet, 1 & 2 Chronicles, The Old Testament Library, John Knox Press, 1993)
Sunday, March 12, 2017
Quem será a Raabe de Mateus 1?
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Na genealogia de Jesus no livro de Mateus (capítulo 1) aparecem quatro mulheres, a primeira delas é Ραχάβ (Grego). Muitos traduzem esse nome por Raabe, equivalente ao Hebraico רחב que aparece algumas vezes na Bíblia Hebraica. Devemos notar que a grafia em Mateus é diferente da Septuaginta (LXX), a Bíblia Hebraica em Grego. Na Septuaginta a רחב de Josué 2 e 6 é traduzida como Ραὰβ (Heb 11:31 e Tiago 2:25). Isso nos leva a considerar se a mulher de Josué é a mesma que Mateus tem em mente. Vejamos primeiro o uso dos termos em Grego e Hebraico para saber se podemos achar alguma resposta para tal questão. Depois comparo as genealogias de Mateus com Rute e Crônicas, menciono algumas tradições Israelitas sobre a personagem de Josué e volto ao texto de Mateus.
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Na genealogia de Jesus no livro de Mateus (capítulo 1) aparecem quatro mulheres, a primeira delas é Ραχάβ (Grego). Muitos traduzem esse nome por Raabe, equivalente ao Hebraico רחב que aparece algumas vezes na Bíblia Hebraica. Devemos notar que a grafia em Mateus é diferente da Septuaginta (LXX), a Bíblia Hebraica em Grego. Na Septuaginta a רחב de Josué 2 e 6 é traduzida como Ραὰβ (Heb 11:31 e Tiago 2:25). Isso nos leva a considerar se a mulher de Josué é a mesma que Mateus tem em mente. Vejamos primeiro o uso dos termos em Grego e Hebraico para saber se podemos achar alguma resposta para tal questão. Depois comparo as genealogias de Mateus com Rute e Crônicas, menciono algumas tradições Israelitas sobre a personagem de Josué e volto ao texto de Mateus.
A
forma que Mateus usa para Raabe (Grego - Ραχάβ) é unica em toda a Bíblia e não
podemos então fazer uma comparação linguística. Já a grafia usada em Hebreus e
em Tiago (Ραὰβ) é usada na LXX algumas vezes para descrever coisas
diferentes. Uma pessoa (mulher em Jericó - Jos 2:1,3; 6:17, 23, 25; rei de Zoba
– 2 Sam 8:3, 12) e um lugar (Num 13:21, Jos 19:28, 21:31, Juz 18:28*; Ps 86:4).
Ela traduz o Hebraico רהב que
também é usada para descrever o Egito (Sal 87:4, Isa 30:7), e um possível
animal forte (Jó 9:13, 26:12, Sal 89:10 e Isa 51:9 – nesse último caso é
possível que Isaías se refira tanto a um animal como ao Egito). Os tradutores
da Septuaginta traduziram o Hebraico רהב nesse contexto mítico ou poético
como κήτη – animal marinho (Jó), ou ὑπερήφανος - arrogante (Salmo 89)
que é um dos significados da raíz em Hebraico. A distribuição dessa palavra não
nos ajuda então a estabelecer se a personagem de Mateus 1:5 é a mesma de Josué 2
e 6.
Mateus
afirma que essa Raabe é progenitora de Boaz por Salmon. A linhagem usada por
Mateus vem de 1 Crônicas 2:2-15 e Rute 4:18-22 que só difere da lista de Mateus
e Crônicas em não mencionar Judá. (Judá-Perez-Hezron-Ram-Aminadabe-Naason-Salmon-Boaz-Obede-Jessé-Davi).
Raabe não é mencionada em Crônicas ou Rute. Assim, também não podemos confirmar
sua identidade por esse meio.
Em
Josué, Raabe (Ραὰβ) aparece primeiro no recebimento
dos espias Israelitas em Jericó (cap. 2) e quando a cidade é destruída (cap.
6). No Josué 6:25 não menciona se Raabe casou com um Israelita, embora isso
seja possível. Ela não é mencionada mais em toda a Bíblia Hebraica. Por isso,
qualquer informação acerca dessa personagem na cultura Israelita provem de
tradição.
O
historiador Israelita do século I, Flávio Josefo, não menciona quem foi a mãe
de Boaz (Antiguidades 5.323-335) nem comenta nada sobre um possível
casamento de Raabe com um Israelita (Antiguidades 5:31). Em tradições
Israelitas após o Novo Testamento, Raabe
é identificada como a esposa de Josué e progenitora do profeta Jeremias
e da profetisa Hulda (Talmude Megillah 14b, 15a). Ela é descrita como
uma das mulheres mais belas do mundo e que a mera menção de seu nome trazia
prazer sexual aos homens que a conheciam (Megillah 15a). Apesar de sua
conexão com prostituição, ela é louvada com progenitora de profetas por sua fé
no Deus de Israel (ver também Midrash Rabbah- Rute 8.1). E isso
parece ser semelhante ao que Mateus faz em sua genealogia.
Lembremos
que a identificação da Raabe de Mateus 1 com a de Josué é que ela é a única
mulher mencionada na Bíblia Hebraica com esse nome. Além do mais as outras 3
mulheres que aparecem na genealogia de Mateus são mulheres não convencionais ou
estrangeiras, Tamar, Rute e a esposa de Urias (Bate-Seba). Com esse contexto, a
Raabe de Josué se encaixaria bem no perfil que Mateus propõe para o Messias.
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