Thursday, February 23, 2017

Por que a semelhanca entre o NT e os MMM? Qual a datação dos MMM?

Quinta é dia de pergunta e resposta no fórum do Eteacher. Toda semana publico uma resposta mais elaborada de perguntas enviadas por alunos ao meu email. Extendo aqui algumas das perguntas e respostas das interações com meus alunos do Eteacher - Contexto Judaico do Novo Testamento. 
Se deseja conhecer mais sobre esses assuntos, matricule-se em nossa turma  click aqui -Ou se quiser sua pergunta respondida aqui, por favor, coloque sua pergunta abaixo e tentarei responder em uma semana.

Os Manuscritos do Mar Morto (MMM) são semelhantes ao Novo Testamento (NT) por causa da tradição Escriturística Israelita. Ambos usam e "abusam" da Bíblia Hebraica (antigo testamento). quando digo "abusam" é que eles estão cheios, permeados, encharcados da tradição textual principalmente da Torah. Como discutimos em sala de aula os livros mais usados por ambas as tradições são Deuteronômio, Isaías e os Salmos.

As expectativas messiânicas, as leis que governavam suas vidas, eram as mesmas pois todos eram Israelitas (Palestinos em sua maioria). Assim, há muita coisa em comum entre os diversos grupos Israelitas da época. E por isso a importância de estudar tais documentos para entender melhor o contexto no período de Jesus.

Quanto a datação dos Manuscritos foram usadas pelo menos três maneiras de identificação.
a) Arqueologia b)Paleografia (estudo da escrita antiga) c) processo químico - como o Carbono-14

a) Arqueologia - baseado em estudos nas ruínas de Quirbet-Qumran (a vila perto das cavernas a beira do Mar Morto) Roland de Vaux descobriu que o local havia sido habitado em vários períodos:
(1) VIII-VII a.C. - fase Israelita
(2) II-I a.C. - atribuida ao período dos Harmoneus, mais especificamente João Hircano (134-104 a.C.) até c.31 a.C.
(3)Nova fase possivelmente pelo mesmo grupo de c.4 a.C até 68 d.C.
(4) Romanos ocupam local brevemente c.68-69 d.C.

Claro que essas datas são aproximadas e outros tem revisado os detalhes. mas no geral o esquema de de Vaux continua em pé. ou seja, a comunidade dos manuscritos do mar morto (provavelmente os Essênios) habitaram a região entre IIa.C. até a destruição de Jerusalém c.68-70 d.C.

b) Paleografia - baseado na caligrafia dos manuscritos e mais recentemente na sintaxe os documentos achados nas cavernas foram datados entre 250a.C.-68-70d.C. Claro grupos de textos foram colocados em períodos distintos. Alguns dos mais antigos (época dos Hasmoneus) como 4QSamuel(b), 4QJeremias(a) e 4QExodus(f) são diferentes de manuscritos mais "recentes" como 4QNum(b)- época de Herodes o Grande. isso e dá pelo estilo de grafia e como as frases eram compostas que são comparados com documentos mais firmemente datados na região.

c) Quanto ao método químico de datação o carbono-14 lembre-se que nem tudo foi submetido, mas exemplares. e as datas que o espectro de carbono-14 revela é aproximado na melhor das hipóteses num período de 100 anos podendo chegar até 300 anos. Ou seja, esse método apenas não é preciso mas auxilia os outros métodos usados acima. As datas apontadas pelos testes vão de cerca de 390a.C. até 115 d.C. O que corrobora as datas paleográficas e arqueológicas. Se quiser posso te enviar um quadro com uma lista de datas comparativas de alguns manuscritos (do livro THE MEANING OF THE DEAD SEA SCROLLS - James VanderKam e Peter Flint)


Resumindo, eliminando as datas extremas (que podem está corretas) temos uma certa precisão que os manuscritos do Mar Morto e a comunidade de Qumran existiram no período de IIa.C.-Id.C. 

Saturday, January 21, 2017

Escutando a história do nascimento de Jesus com ouvidos Hebraicos no primeiro século na Síria - Parte 2

Há alguns dias estou refletindo sobre as notícias vindas da Judeia. Esse nascimento de Jesus com aparições de estrelas e anjo tem me deixado intrigado. As semelhanças do que escutei com as histórias de Abraão, Moisés, Sansão e Davi são muitas para serem meras coincidências (ver texto anterior). O mensageiro do Senhor apareceu em momentos de crise ou juízo quando um sacrifício deveria ser feito para o livramento de alguém. Será que é tempo de visitação divina?

Sábado passado conversei com o mestre da sinagoga, rabi Naason, sobre os últimos acontecimentos na Judeia e suas semelhanças com as Escrituras Sagradas. Perguntei se ele também ouvira o relato vindo de Susa, sobre os sábios do Oriente que viram uma nova estrela e a seguiram até Belém e disseram assim ter conhecido o messias. Rabi Naason me disse que estava em Jerusalém quando isso aconteceu, a uns 20 anos atrás. Ele lembra que a notícia trazida por eles, de uma estrela nova no céu, gerou uma atmosfera de ansiedade entre os mestres da lei. Logo o que mais se comentava na cidade era a possibilidade do messias ter nascido.

O povo ficou esperançoso, ele me contou, porque não viam a hora de Herodes sair de cena. Apesar de ter iniciado a reconstrução do templo, uma grande e belíssima obra, seu governo trouxera muito sofrimento aos habitantes da Judeia. Herodes era muito cruel até com seus próprios familiares. Ah, corria um dizer entre o povo que melhor seria ser seu porco do que sua esposa, pois pelo menos o porco estaria salvo. Não foi em vão que Herodes mandou matar crianças em Belém ao saber da possibilidade de que seu poder estava sendo ameaçado.

Em reuniões que participara no templo após a visita dos magos, Naason lembra que um grupo de mestres da lei de diversas partes estudara avidamente as profecias para saber ao certo quando o messias chegaria. E dentre várias passagens estudadas, a do profeta Daniel foi a que mais os impressionou. Pois essa era a única que mencionava um tempo para a vinda do messias, o príncipe de Israel (Dan 9:25). Sessenta e nove semanas de anos desde a reconstrução do templo na época dos exilados até o ungido. Eles calcularam de diversas formas quando isso deveria acontecer, e o consenso era que, em breve, pois já havia passado mais de 450 anos desde a saída de Esdras da Pérsia.

Coincidentemente, o texto lido na sinagoga naquela manhã que conversava com o rabi fora o da oração de Daniel (capítulo 9). Aproveitando a oportunidade, rabi Naason me mostrou as semelhanças entre aquele episódio e os rumores sobre o nascimento de Jesus. O mesmo Gabriel que aparecera ao profeta no Oriente é dito ter aparecido anunciando o nascimento desse menino Jesus. Como no passado, Gabriel anunciou que alguém fora favorecido(a) por Deus (Dan 9:23/Luc 1:28,30, cf. Gên 6:8), e por isso, não deveria temer (Dan 10:12/Luc 1:13, 30). A mensagem que Daniel recebera do anjo fora sobre o final dos pecados, sacrifício, aliança e libertação, como nas outras visitas desse anjo (Moisés, Sansão e Davi). Isso eu já havia notado (ver texto anterior). Fiquei feliz em saber que não era o único intrigado com tais semelhanças.

Mas ele me mostrou algo mais. Ele me fez refletir sobre o significado da oração de Daniel e a vinda do messias. Ele me lembrou que Daniel e os demais Israelitas estavam em Babilônia por desobedecerem a aliança (Deut 28:36, 47-51, 64-67; Dan1:1,2 à 2 Crôn36:15-17). E por infidelidade de boa parte do povo o templo havia sido destruído. Em ruínas, a condição do santuário em Jerusalém era apenas um reflexo do relacionamento entre os Israelitas de outrora e Deus. Triste com a fragmentação moral e física de Jerusalém, Daniel ora.

Rabi Naason pondera que tal oração tem em mente outra oração, a que Salomão fizera ao dedicar o templo (1 Reis 8:15-63). Naquela ocasião, Salomão pede ao Senhor que perdoe Israel quando o povo transgredisse os mandamentos e levado fosse em cativeiro, conforme os termos da aliança. O rei suplica ao Senhor que perdoasse e atendesse qualquer um que orasse por perdão, voltado ao templo, buscando o Senhor. É exatamente isso que Daniel fez. No cativeiro, tendo os pecados de Israel em mente, tendo o templo em ruínas em mente, ele clama ao Senhor por livramento (Dan 9:2-19).

Logo noto que o texto diz que Daniel, antes de orar, refletia sobre o tempo que já estivera no cativeiro, à luz do profeta Jeremias. O profeta Jeremias havia prometido que, após 70 anos, Israel retornaria a Jerusalém (Jer.25:9-12). É possível que Daniel achasse que o tempo chegara, pois naquele ano de sua oração já havia se passado cerca de sete décadas desde a sua saída de Jerusalém. Entendendo as condições da profecia e da aliança Daniel implora para que Deus intervenha (Jer 29:10-14; Dan 9:12-20).

Nesse momento de clamor, Gabriel aparece com uma promessa, o reino do Deus de Israel seria restaurado. Jerusalém com suas ruas e muros seria reconstruída e o messias viria. Pouco tempo depois (cf. Dan 10:1 e Esd 1:1) Esdras recebe permissão de Ciro, rei da Pérsia, para retornar com outros Israelitas à Jerusalém a fim de reconstruir sua nação (Esd 1-2). O templo é restaurado, Jerusalém reconstruída, mas até agora o messias não veio e o reino de Deus não chegou. Essa parte da promessa ainda não foi cumprida.

Rabi Naason confessou que ele acreditava que o tempo chegara para a vinda do messias. Ele me mostrou que o tempo proferido por Gabriel a Daniel, de 70 semanas de anos (490 anos), estivera perto de completar ou já terminara (Dan 9:25,26). É possível, então, que os acontecimentos em volta do nascimento desse Jesus de Belém esteja relacionado ao tempo da profecia.

Agradeci ao rabi pela ótima conversa e, como já era tarde, voltei para casa. Fui dormir pensativo com mais perguntas que respostas. Se o tempo prometido já chegou, por que nós, Israelitas, continuamos oprimidos pelos Romanos e Persas? Onde estará esse Jesus de Belém? Será que ele é o enviado de Deus para restaurar Israel?

Thursday, December 29, 2016

Escutando a história do nascimento de Jesus com ouvidos Hebraicos no primeiro século na Síria

Até agora estou pensando sobre os eventos ocorridos por ocassião do nascimento desse Jesus de Nazaré. Simeão, meu amigo, acabara de chegar da Judeia, de onde escutou tal história. Ele havia ido ao templo em Jerusalém para oferecer seu sacrifício na Páscoa e, após o término do festival, retornara para casa. Ele não era o primeiro em Edessa que retornou de Jerusalém com notícias de um possível Messias.  Vários outros já disseram que o Messias chegara mas até agora nada mudou, tudo continua na mesma.

Os Persas aindam nos ameaçam ao Oriente. Vindo do Ocidente os Romanos nos exploram e pedem nossa fidelidade contra os Persas. Temos que sustentar o exército com quase metade de nosso ganho para nos assegurarem que não seremos deixados à mercê dos árabes e Persas. Quem sabe seria melhor se isso acontecesse. Pois relatos de amigos em Nisibis, a alguns  dias de distância ao Oriente daqui, do lado Persa, não são tão ruins. O imposto pago aos Persas parece ser bem menor dos que pagamos aos Romanos.

Há anos escutamos que em breve o libertador aparecerá na Judeia e assim, nós Israelitas, teremos o nosso próprio reino. Talvez seria dessa vez.  Mas o que escuto da família de Herodes, o rei da Judeia, não é nada encorajador. Seus filhos, os que não foram assassinados por seu pai, são tão ruins para nossos irmãos ou pior que os Romanos ou os Persas aqui no Eufrates.  E por isso que a história desse nascimento me deixou ainda mais intrigado. Seria então um novo rei que destituiria os filhos de Herodes? Fiquei em dúvida a princípio. Novamente, tudo continua na mesma e Simeão disse que tais eventos já aconteceram a alguns anos.

Mas algo me diz que dessa vez pode ser diferente. Seria esse o enviado de Deus para finalmente restaurar o reino de Davi, nosso pai?  Afinal, o que escutei me fez lembrar de muitas promessas das Sagradas Escrituras.

Escutei que ele nasceu em Belém, na cidade de Davi (Mat 2:1, Luc 2:11) Seus pais haviam recebido a visita de um anjo do Senhor, anunciando que o bebê seria o rei de Israel para sempre (Luc 1:32, 33). Isso me fez lembrar do que Deus havia prometido em um sonho a Davi, que seu filho (Mat 1:6, 20; Luc 1:27) seria rei para sempre. Seria esse filho que construiria uma casa eterna ao Deus de Israel (II Sam 7:13/ Luc 1:32,33; Mat 2:2). O local onde o sacrifício da aliança seria imolado começou a ser preparado quando um anjo do Senhor apareceu a Davi. Dessa vez com más notícias. A casa de Davi seria punida. Enquanto o anjo levantava sua mão contra os Israelitas, Davi edificava um altar e fazia cessar a praga (II Sam 24, I Crôn 21). Naquele momento de juízo apenas um sacrifício expiaria os pecados e livraria Israel. Salomão, o filho de Davi, quem construiu o templo no local onde Davi, seu pai, erguera um altar, ratificou a aliança, mas não houve paz em Israel conforme o prometido. Será então esse suposto rei o que realizará finalmente o sacrifício do filho de Davi, e que trará fim ao sofrimento de Israel? Pois conforme escutei em sua história, teve início com a visita de um anjo no templo, anunciando a libertação de Israel (Luc 1:8-23; 2:22-49/Mal 3:1).

Sua história é também bem semelhante à história do nosso grande mestre Moisés. Em seu nascimento me foi dito que as crianças Israelitas morreram (Mat 2:16-18), e que possivelmente apenas ele havia escapado para o Egito. Mas parece que ele retornara com seus pais para a terra de Israel. Semelhante às indas e vindas de José, que também foi dado por morto, foi ao Egito e se tornou o salvador de sua família, como Moisés. Esse também recebeu a visita de um anjo do Senhor (Êxod 3:2), como no juízo de Davi, e foi escolhido para libertar Israel da escravidão.

Por falar em anjo do Senhor, parando para pensar, não foi com muita frequência que Deus enviou esses mensageiros. Ele aparece anunciando o nascimento de Sansão, que também libertou Israel dos seus inimigos. O anjo do Senhor parece ter algo em comum  em todas essas histórias de Davi, Sansão e Moisés. Em todos elas, lembro que o mensageiro de Deus aparece num momento de crise, e um sacrifício é realizado para evitar a morte de alguém ou dos pais (Juz 13:22-23) ou dos filhos (Êxod 11-12) ou de todo Israel (II Sam 24:15-17, 21, 25).

As semelhanças com Moisés e Sansão não param por aí.  Em ambos os encontros com esse mensageiro, tanto Moisés como os pais de Sansão, inquerem sobre o seu nome (Êxod 3:13; Juz 13:17). E como escutei de Simeão, nome pareceu ser algo importante nos eventos do nascimento desse Jesus (Mat 1:21, 23, 25; Luc 1:13, 59-66; 2:21). Escuto ecos de Sansão também quando ouço dizer que essa criança, de acordo com rumores na Galileia, cresce cheia do Espírito em Israel (Juz 13:25/Luc 1:80; 2:52; 3:22; 4:1, 18), e que era impossível sua mãe conceber naturalmente (Mat 1:18, Luc 1:7, 27, 34-37).

Ah, mas essas não foram as únicas mães em Israel que não puderem ter filhos naturalmente. Lembro de Sara, Raquel e Ana...Por falar em Sara, um anjo do Senhor também apareceu a ela prometendo um filho (Gên 18:10). Depois de velha ela teria o prazer de gerar vida (Gên 18:12/Luc 1:14). Ana, semelhante a Ζacarias, parente de Jesus (Luc 1:36), também aparece no santuário pedindo um filho a Deus com seu coração cheio de angústia (I Sam 1:11/Luc  1:13) e suas orações são respondidas. Ambos são juízes em Israel, consagrados ao Senhor,  e são recebidos com cânticos de exaltação e juízo, com uma forte esperança que esse seria o tempo da libertação do Senhor (I Sam 2:1-10/Luc 1:46-55, 68-79).

Quem sabe, Miriã, nossa vizinha, deveria escutar essa história. Há anos ela tenta ter um filho. Já desistiu até de ir a Jerusalém para pedir a Deus. Ela disse a minha esposa que não adiantava andar toda essa distância, de aproximadamente 20 dias, sem a certeza de que seria atendida por Deus. Afinal, desde os reis de Israel não se escuta de uma estéril que dera à luz um bebê. Mas se essa história for verdade, recentemente duas Israelitas foram atendidas e visitadas por um anjo do Senhor.

Falando em anjo novamente, essa história de Jesus me fez lembrar de Daniel. O mesmo Gabriel que aparecera ao profeta no Oriente, é dito ter aparecido anunciando o nascimento desse menino Jesus. Como no passado, Gabriel anunciou que alguém fora favorecido(a) por Deus  (Dan 9:23/Luc 1:28,30, cf. Gên 6:8), e por isso, não deveria temer (Dan 10:12/Luc 1:13, 30). A mensagem que Daniel recebera do anjo fora sobre o final dos pecados, sacrifício, aliança e libertação, como nas outras visitas desse anjo (Moisés, Sansão e Davi). Será esse o ungido (messias) prometido por Gabriel a Daniel? (mais sobre isso em breve)

Há rumores que vários acreditam ser esse o caso. Inclusive, enquanto comprava especiarias da Índia, trazidas por mercadores vindos de Nisibis em direção a Cesareia, meu pai escutou deles que já fazem uns anos (aproximadamente o tempo que Simeão disse ter nascido a criança, no final do reinado de Herodes) que ricos sábios de Susa (ao leste do Tigris) foram a Belém e retornaram proclamando terem conhecido o novo rei de Israel ainda bebê. O mestres Judeus da região diziam ser possível que tal fosse o prometido por Deus, pela contagem do número proferida por Daniel, e da suposta estrela que tais magos disseram ter visto. Mas, novamente, já fazem pelo menos uns 25 anos e até agora nada aconteceu de novo.


Será que esse Jesus ainda está vivo, será que ele está esperando o tempo certo para estabelecer o reino de Israel ou será uma triste coincidência?