Wednesday, April 8, 2020

Reflexões sobre a Páscoa


Shalom!
É o feriado de Pessach (Páscoa) e da Hag HaMatzot (Semana dos Pães Asmos). Aproveito esta oportunidade para refletir sobre o significado desses tempos sagrados da Páscoa e da semana dos Pães Asmos. Nos próximos dias, leia os 18 primeiros capítulos do livro de Êxodo para apreciar o motivo da temporada. Abaixo algumas das minhas reflexões sobre isso.

No livro de Êxodo, a história começa com os Israelitas em escravidão depois que um governante perverso (Faraó) chegou ao local que ignorou o papel de José na libertação agrícola do Egito durante a seca. Os filhos de Jacó, que haviam ido ao Egito, escapando da esterilidade, agora se encontravam em uma inesperada situação de escravidão. Eles clamam a Deus, mas parece que Deus os havia abandonado. Mas apenas apareceu. As damas de Israel se tornam férteis e os Israelitas produzem tantos filhos que até o faraó é ameaçado. Outra circunstância triste, no entanto, está a caminho. Os bebês são executados pelos soldados egípcios. Parece que a esterilidade era o destino deles. Enquanto isso, Deus resgata o bebê Moisés, que serviria como um sinal do que Ele faria com Seu filho Israel.

Novamente, eventos infelizes aconteceram e Moisés teve que deixar o Egito. Por quarenta anos, os Israelitas vivem em escravidão e Moisés no deserto, uma terra árida. Talvez seja um sinal da amnésia e do abandono de Deus. Mas apenas pareceu. No devido tempo, Deus aparece. Moisés é enviado ao Faraó com a mensagem: "Deixe meu povo ir!" Não seria assim tão fácil. Depois dos sinais de Moisés transformando a água em sangue e um pau em uma cobra, parece que o Faraó ficaria convencido. Mas apenas pareceu. Foram necessárias dez pragas e a morte dos primogênitos dos egípcios para quebrar a teimosia do faraó e as dúvidas dos Israelitas.

Na última manifestação do poder de Deus no Egito, é ordenado aos Israelitas que eles fizessem uma refeição especial enquanto a morte pairava do lado de fora de suas casas. O anjo do SENHOR tiraria a vida do primogênito daqueles que não seguissem as detalhadas instruções. Um cordeiro deveria ser abatido e seu sangue colocado em seus batentes de porta para apagar a memória da escravidão e cultura egípcias, ao mesmo tempo em que fornecia uma nova identidade aos participantes da refeição. Naquela noite, eles seriam entregues. 

Não havia tempo para levedar o pão. Eles comeriam bolachas sem fermento naquela noite, com cordeiro assado e ervas amargas. Eu posso imaginar a angústia e o alívio daquela noite fatídica. Enquanto eles comiam, a morte passava sobre os salvos pelo sangue do cordeiro. Mas a morte entrou nas casas daqueles que ignoraram o convite da misericórdia. Os prantos dos pais egípcios quebram o silêncio. É o clamor de incrédulos no que acabara de acontecer dentro de suas casas, por causa do excesso de confiança de seu líder.

Era primavera no Egito. Aquele era o tempo da nova vida. Mas apenas pareceu. A vida nunca mais seria a mesma. Quando as colheitas deveriam crescer, a terra foi devastada. Havia pouco que o Egito pudesse oferecer. Os Israelitas tiveram que procurar refúgio em outra terra, a prometida que fluía com leite e mel. Mas as expectativas falharam novamente. Eles primeiro tiveram que passar pelo deserto. Lá para ser alimentado por Deus. Embora pareça que a experiência da Páscoa foi o fim, apenas pareceu assim. A décima praga foi apenas o começo. 
Um reinício para um grupo de ex-escravos. Para aqueles Israelitas, a liberdade era maravilhosamente estranha. Eles tiveram que desaprender muitas coisas e aprender outras, se quisessem se afastar do Egito. A refeição da Páscoa se tornaria um lembrete das aparências fracassadas do poder humano e do momento perfeito de Deus.

Como comemoramos hoje a Páscoa, enquanto a morte paira fora com o Covid-19, não deixe que as aparências de desespero o assolem. Deus está no controle da história. Confie nele, ouça seus comandos e, no devido tempo, seremos também libertos.

“Se vocês derem atenção ao Senhor, o seu Deus, e fizerem o que ele aprova, se derem ouvidos aos seus mandamentos e obedecerem a todos os seus decretos, não trarei sobre vocês nenhuma das doenças que eu trouxe sobre os egípcios, pois eu sou o Senhor que os cura.” (Êxodo 15:26)

Thursday, October 3, 2019

Ano novo divino

Recentemente Israel comemorou o ano novo e em breve ocorrerá o dia das expiações. Conectando esses dois, trago aqui um texto adaptado que havia escrito em meu blog em 2010.


É ano novo e o que percebo é que o Cristianismo tem esquecido o significado do tempo. Muito se fala em vestir branco, não andar para trás, colocar moeda debaixo do tapete, pular 7 ondas e outras coisas estranhas à bíblia. Acredita-se que esses rituais irão mudar a vida dos que praticarem tais atos. Enquanto isso a Bíblia ensina algo bem diferente.

Ao Israel sair do Egito, Deus ensina ao Seu povo que o tempo deveria ser contado em relação ao santuário. Haviam 7 grandes tempos sagrados em Israel. Páscoa, Pães asmos, Primícias, Pentecostes, Trombetas, Expiação e Tabernáculos (consultar aula 12). As duas últimas festas eram relacionadas ao ritual de passagem de um ano para outro. É importante lembrar que a contagem de dias e meses não era como o nosso atualmente. Mesmo celebrado no sétimo mês, o rito da expiação comemorava a passagem do povo de Israel de um ano para o outro. A mudança ocorria em dois planos: (1) o ciclo da agricultura estava encerrando com o outono - Israel está no hemisfério norte por isso agora é outono - e (2) os rituais do santuário eram encerrados com a sua purificação.

O santuário era purificado porque durante o período de um ano, os Israelitas poderiam pedir perdão de pecados através de uma oferta. O livro de Levíticos mostra que as impurezas de todo Israel era depositada no santuário. Mas no último dia litúrgico, o dia da expiação, a limpeza ocorria não só no arraial como no santuário.

O rito ocorria por causa das impurezas, pecados e transgressões em Israel. Deus é puro e santo e o povo deveria também ser puro e santo (Êx.19:6 e Lev. 19:2). Como Deus habitava no meio do povo (Êx.25:8), as doenças, impurezas físicas, e pecados contaminavam Sua casa. Mas essa contaminação era benéfica, pois tinha o objetivo de purificar, de remover a maldade do povo (Lev.5:18). Assim como um hospital está cheio de doenças, mas continua sendo o local de cura, o santuário de Deus era uma esponja que sugava as impurezas do Israelitas arrependidos.

O esquema funciona em duas etapas conforme explica Lev 16. Todos os dias as ofertas e sacrifícios ensinavam o israelita que o pecado traz morte. E mediante o arrependimento e confissão, o pecado era transferido para o santuário, através da oferta. A habitação de Deus era sujada por todo um ano e no último dia do ano ritual, ele era limpo. Era o dia das expiações, da remoção do pecado.

O texto de Lev. 16 e 23 explica que durante o ritual todo israelita deveria jejuar, vestir roupas simples e afligir suas almas, ou seja, examinar sua consciência e arrepender dos pecados. Confiantes nos méritos do sacrifício e da mediação do sacerdote, o israelita deveria esperar ao final do dia uma vida renovada. Seus pecados haviam sido removidos e sua culpa também.

A casa de Deus funcionava como um depósito de pecados, por mais estranho que isso pareça. Os Cristãos em sua compreensão da expiação enxergam em Is.53 essa mesma dinâmica. O texto afirma que o servo de Deus se tornou pecado para nos dá a paz (ver 2 Cor 5:21). Essa paradoxo e promessa é central ao ritual do ano novo divino.

Curiosamente, a tradição Judaica rabínica desenvolve a noção que o ano novo ocorre não no décimo dia do 7o. mês (Yom haKipurim), mas no primeiro dia do 7o mês. Mas de acordo com Lev 23 o primeiro dia do 7o. mês é o dia das trombetas (v.24). Não há nenhuma indicação na bíblia de qual o significado desse dia, mas tradições apontam para um dia de aviso do juízo vindouro, o dia das expiações no dia 10. Assim, pelo calendário litúrgico o dia de ano novo era após o dia 10 e não após às Trombetas. Ou, seguindo o calendário da agricultura, o ano começava na primavera com o mês de Abibe ou Nisã, o mês da Páscoa e da saída dos Israelitas

Friday, September 15, 2017

Oras, o templo já não foi reconstruído? Há profecias sobre uma segunda reconstrução do templo?

Continuando nossa série de perguntas e respostas, uma questão vinda de um de nossos alunos sobre o templo em Jerusalém e profecias de sua restauração. 

Se deseja a sua pergunta respondida aqui, por favor, me envie pelo email rodrigog@eteachergroup.com 

As profecias de Ezequiel, Ageu, Malaquias e outros apontam para a vinda do Reino Messiânico num templo restaurado. Restaurando tendo em comparação a destruição feita pelos Babilônicos. É verdade que o Templo foi reconstruído começando com Esdras e Neemias, mas essas profecias parecem apontar para algo mais espetacular pois quando o Templo for "verdadeiramente" reconstrído haverá paz e o Deus reinará em Israel (Leia Ezequiel 40-44 por exemplo). Isso não foi o que ocorreu com a reconstrução do Templo (o segundo). E não é surpresa que vários Israelitas não achavam que o 2o. Templo era o envisionado pelos profetas. Os Israelitas de Qumran por exemplo em um de seus documentos escreveram que Deus removeria o atual Templo (corrupto) e reconstruiria um novo conforme Ezequiel (Rolo do Templo - Temple Scroll) quando justiça e paz duraria pra sempre.

Semelhantemente o NT não deposita muita confiança no 2o. Templo e aponta para um Templo Messiânico na figura de Cristo (e.g. João 2) e num santuário no céu (livro de Hebreus e Apocalipse). Somente com a 2a vinda do Messias que o Templo seria purificado e verdadeiramente restaurado o reino de Deus.  Vários Israelitas (Judeus) atualmente possuem a mesma crença, que as profecias acerca da restauração do Templo não se cumpriu no 2o Templo, e por isso, eles estão à espera de sua restauração.

O Templo certamente foi reconstruído após o cativeiro Babilônio mas como mencionei, de acordo com várias profecias na Bíblia Hebraica a reconstrução prometida inclui uma restauração do Reino de Deus, o que para muitos não ocorreu no V século AEC. Sobre números de templo creio que esse não seja o ponto. Tanto Judeus como Cristãos (alguns) acreditam que não importa necessariamente a reconstrução física de um templo em Jerusalém, mas essas profecias devem ser lidas em conjunto como uma promessa da instauração do Reino Messiânico. Assim alguns ainda esperam tal cumprimento.

Há referências na Torá que falam de um lugar que Deus escolheria para estabelecer o tabernáculo (Deut. 12:5,11,13; 15:20; 17:8; 18:6). No entanto, em I Reis 8:16 é dito que Deus até Davi não havia escolhido nenhum lugar específico. É com Davi que um lugar é escolhido para erigir um Templo e com inicial resistência de Deus mas depois aprovação. 

A tradição Samaritana em sua versão do Pentateuco escreve mt. Gerizim em algumas passagens de Deuteronômio e num mandamento de Exod 20. Para eles o local santo escolhido por Deus antes da entrada na terra prometida é o Mt. Gerizim, o monte onde as bênçãos deveriam ser pronunciadas (Deut.11:29, 27:12; Josué 8:33). Para mais informações sobre a razão histórica desse debate ver o livro JEWS AND SAMARITANS (Gary Knoppers) 

Sobre Templo e Cristianismo a relação é mais complexa. Resumo os pontos principais da diversas teorias. Alguns pais da Igreja no II-III século por exemplo acreditavam numa restauração física do templo em Jerusalém com a 2a. vinda do Messias (Jesus). Posteriormente, na época de Constantino, quando o Cristianismo é aceito pelo Imperador Romano, a sacralidade geográfica do Templo foi transferida para a Igreja do Santo Sepulcro construída por ordem de Helena, mãe de Constantino, - verificar Eusébio de Caesareia em História Eclesiástica e Vida de Constantino. A diferença aqui é que o reino de Deus agora é representado pelo Império Romano Cristão e não mais uma vinda de Jesus física. Essa ideia toma contornos mais detalhados em Agostinho (Cidade de Deus). Essa tradição continua com seus adeptos hoje. Há vários Cristãos que acreditam numa restauração do templo em Jerusalém como cumprimento das profecias da Bíblia Hebraica.


No entanto nem todos os Cristãos aderiram a essa sacralização em Jerusalém ou do Reino de Deus=Império Romano Cristão (creio ser a maioria dos Cristãos na história). Para esses Jerusalém não é o lugar sagrado (onde Deus habita de uma maneira especial). Jesus está no santuário celestial (NT- Hebreus) e em Sua Igreja ao redor do mundo (Mt 28:20). As profecias acerca de uma restauração de Jerusalém ocorrerá por ocasião do retorno de Jesus quando uma nova terra será feita (Apocalipse 20-22). Obviamente que há detalhes de ambas interpretações que são questionados e discutidos por adeptos dessas visões. Mas, de maneira geral essas 2 são as teorias principais acerca do Templo em Jerusalém e o Cristianismo.

Thursday, July 13, 2017

Se o ser humano após a morte não age, quem “subiu” ou apareceu a Saul em I Sam 28?

Se deseja a sua pergunta respondida aqui, por favor, me envie pelo email rodrigog@eteachergroup.com 

Primeiramente devemos lembrar que no Bíblia a morte é inexistência (Sal.6:5, 115:17, 146:4, Ecl 3:19-20, 9:4-10). A noção de uma existência pós-morte ou sem Deus é uma ideia atribuída primeiramente a serpente (Satanás) em Gên 3:4-5 (ver Gên 2:17 e Apoc 12:9). Em Deut 18:9-14 e Isa 8:19-20 Deus proíbe qualquer contato com aqueles que consultam aos mortos (ver Lev 20:6, 27). Mas por que proibir algo que seria impossível? Se o morto não pode interagir a que se refere essa proibição?

As proibições de Deut 18 e Isa 8 apenas mencionam a consulta aos mortos com idolatria e engano mas essas passagens não explicam se o morto era visto ou não e se sim o que seria esse ser. É no Novo Testamento que isso é explicado.  Ensinando aos Coríntios sobre idolatria, Paulo relacionado os ídolos aos demônios ou inimigos espirituais de Deus (1 Cor 10:19-21). Ele afirma que o próprio Satanás pode agir de maneira enganosa através de personificações (2 Cor 11:13-15) como ocorreu na tentação de Jesus (Mat 4:1-11). Assim, nos parece lógico relacionar a aparição de mortos como vivos aos demônios.

Tendo isso em mente vamos a uma breve análise do único caso em toda a Bíblia de uma aparição de um defunto humano como vivo, 1 Samuel 28. O texto deixa claro que Samuel estava morto (v.3). A narrativa começa com essa observação preparando o leitor para as incoerências que se seguem. “Samuel estava morto e...” além do mais “Saul havia expulsado do país os médiuns e os que consultavam os espíritos.” (v.3).  De acordo com a ordem divina explicitada em Deut 18, os necromantes foram banidos pelo rei de Israel porque tal prática era abominável (ver 1 Sam 6:2, 15:23). Essa observação deixa ainda mais claro a incoerência do que se segue, pois o próprio rei que mandara expulsar os necromantes agora estava a sua procura. E por que?

“Saul viu o acampamento filisteu e teve medo, ficou apavorado.” (v.5) O medo de Saul o fez agir de maneira insensata. Anteriormente Deus havia liberto os Israelitas dos filisteus sem muitos problemas. Davi não tivera medo do gigante Golias. Mas Saul perdera o senso da proteção divina e por isso o medo. O rei havia perdido contato com o Senhor Deus de Israel. “Ele consultou o Senhor, mas este não lhe respondeu nem por sonhos, nem por Urim nem por profetas.” (v.6). Desde o capítulo 15, quando Saul desobedece a ordem divina pronunciada pelo profeta Samuel, Deus não se comunica com Saul.

A sequência narrativa desde 1 Sam 15 enfatiza o contraste entre Saul e Davi e dá força literarária ao abandono divino ao rei Saul. Em 1 Sam 15 Deus rejeita Saul (não é à toa que Deus não o respondera no cap. 28).  Em seguida (1 Sam 16) Davi é ungido por Samuel enquanto isso Saul é possuído por um espírito mal (v.23; ver 18:12). Saul então começa a perseguir Davi e em certa ocassião o espírito do Senhor se apodera dos homens de Saul os inibindo de matar Davi (1 Sam 19:20). Saul continua com o espírito do mal e vai a loucura ordenando a matança de toda uma cidade de sacerdotes por vingança ao tratamento com Davi, que havia consultado ao Senhor via o sacerdote (1 Sam 22). Essa narrativa se torna significativa porque em 1 Samuel 28 é informado que esse privilégio é negado a Saul. O contraste entre Davi e Saul se dá também em atitudes. Davi mesmo tendo oportunidade e apoio não assassina o seu inimigo Saul (1 Sam 25 e 26). Ao leitor chegar em 1 Samuel 28 a narrativa deixa claro que Deus não mais está do lado de Saul e sim de Davi. Por que então Deus falaria com Saul?

Em 1 Samuel 28 chegamos ao ápice do afastamento de Saul do espírito do Senhor. Deus não responde sua consulta (v.6). Disfarçado, à noite, o rei então em desespero procura uma alternativa aos caminhos de Deus (v.8). Saul mente e se esconde, semelhante a atitude de Adão e Eva no Éden (Gên 3).  A ironia nisso é que apesar dele se esconder e mentir, a própria necromante o reconhece e fala a verdade (v.9, 12). Além disso, o próprio ser que aparece a Saul afirma que Deus o havia abandonado (v.16). 
Então se o ser que aparece não era do Senhor Deus, quem seria?

No v.13 a médium afirma avistar um Elohim (Heb. deus[es]) vindo da terra. Essa descrição é enigmática primeiro porque o Deus de Israel normalmente aparece do céu. Devemos lembrar que a palavra Elohim é usada para descrever qualquer ser superior (líderes, deuses, Deus – ver aula Teísmo na Antiguidade). Perceba que ela não afirma ter visto Samuel, mas apenas um elohim, um ancião vestindo um manto (v.14). E baseado nessa descrição Saul achou/percebeu que era Samuel (Heb. yada).

A partir desse reconhecimento a narrativa então usa “Samuel” para descrever o ser com quem Saul conversa (v.15). Se então o morto “Samuel” não vem do Senhor, e usando a explicação Paulina, era um demônio, o curioso nessa passagem é que a sua fala foi verdadeira mas negativa. “Samuel” profetiza que Saul e o exército Israelita seriam destruídos pelos Filisteus. Isso é cumprido cabalmente no final do livro (1 Samuel 31). Pode então um demônio falar a verdade e agir como um profeta? Parece que sim.


Em Gên 3, a serpente fala a verdade em afirmar que os olhos de Eva se abririam e que ela conheceria o bem e o mal. Para Jesus, Satanás cita textos da bíblia, certamente verdadeiros. A sutileza do engano não é a completa falta de verdade, mas a mixtura com o erro e as intenções que geram morte. Ninguém se engana com uma nota falsa de 3 reais porque ela não existe. Falsificação tem como base o verdadeiro.  Nos parec e que o engano de “Samuel” foi reproduzir fielmente o profeta do Senhor fazendo com que o rei Saul aceitasse sua própria teoria do engano. E junto com sua mensagem contendo verdades, “Samuel” aumenta o medo de Saul e faz com que ele perca a batalha para os filisteus (1 Sam 31). Enquanto isso, Davi é vitorioso por ser obediente ao Senhor (1 Sam 30).

Thursday, July 6, 2017

Variadas perguntas de uma aluna

1 - As bulas encontradas na cidade de são selos em cera. Em contato com o fogo elas endureciam e se preservaram.Como pode uma cera endurecer em contato com o fogo? A cera era algum tipo de argila?

Os selos encontrados em Jerusalém eram de barro/argila. Material bem mais comum e fácil de manuseio. Assim, quando a cidade foi queimada eles foram preservados por serem de argila. O fogo ao invés de consumir o barro, o torna mais rígido. 


2 - 9º dia do mês de Av junho/julho/agosto) (Tisha b'Av) O 9º dia do mês de Av é sempre junho/julho ou muda todo ano? Este ano 9º dia de Av será 1º de agosto.

Por que faz jejum nesta data? Será por causa da destruição dos templos?

Destruição do 1º templo pelos Babilônicos
Destruição do 2º templo pelos Romanos (general Tito) 70 DC
Início da 1ª e 2ª grandes guerras mundiais e outros eventos fatídicos aos Israelitas.

Esse dia na tradição rabínica é atribuído a várias catástrofes, começando com o retorno do espia da terra prometida, e a reclamação e punição. Em Núm 14 é mencionado que Deus puniu os Israelitas com a morte no deserto por serem infiéis. Apesar do texto não mencionar o dia, de acordo com a tradição rabínica isso ocorreu no tesha B' av (Mishnah Taanit 4:6)
Com um tempo criou-se na tradição o costume de jejuar (sinal de contrição e tristeza): nada de comida, sexo, cosméticos, banhos. E apenas o livro de Lamentações e Jó podem ser lidos nesse dia. Isso mostra o espírito do dia, de tristeza e reflexão sobre eventos ruins do passado.

3 - A partir do segundo templo não existe mais a arca sagrada e não se pode mais levar sacrifício, por quê?
Na verdade, a arca da aliança está perdida desde o cativeiro Babilônico no século VII-VI a.C. Algumas teorias dizem que a arca foi escondida por Jeremias (2 Macabeus 2:4-8). De acordo com esse texto, a arca foi escondida num local próximo a Jerusalém e será revelado no tempo do fim. No livro do Apocalipse a arca da aliança foi visualizada no céu por João (Apoc 11:19). Seria essa a mesma do templo na época de Salomão? Não está claro, mesmo porque a tradição bíblica e Israelita pós-bíblica indica que no céu a um templo também.

Na Etiópia há uma tradição ainda mais curiosa. De acordo com os cristãos que lá moram, os Israelitas que saíram de Jerusalem para o Egito antes da última invasão dos Babilônicos, (mencionado no livro de Jeremias) levaram consigo vários untensílios do Templo, inclusive a arca da aliança. Sabemos que desde essa época há no sul do atual Egito, em Elefantina, um templo que fora construído por Israelitas e dedicados ao Deus de Israel. Algumas cartas foram preservadas dessa época e mostra o diálogo que esses Israelitas tinham com os moradores de Jerusalém. Além do mais, de acordo com a tradição Etíope, os Judeus que mantinham a arca se converteram ao Cristianismo e hoje a arca é preservada numa igreja de restrito acesso em Axum.

Outras teorias dizem que os cavaleiros Templários acharam a arca na Idade Média e trouxeram para a Europa (França), outros dizem que ela foi levada pelos Israelitas ao sua da África, ou seja, não parou na Etiópia mas continuou mais ao sul e depois foi escondida,....ou seja, com exceção dos Etíopes que dizem possuir a arca, ninguém sabe o que aconteceu com ela ao certo.

Mas, depois dessa digressão, voltando a sua pergunta, por que não mais oferecer sacrifício? Primeiro, não há uma relação entre a arca e sacrifícios. Mesmo depois do cativeiro os Israelitas do 2o Templo ofereciam sacrifício no templo restaurado em Jerusalém. O que a Torá proíbe é o sacrifício fora dos prescintos do Templo. O livro de Levítico é claro quanto a isso (ver 17:1-11). Os Samaritanos no entanto não inclui o sacrifício da páscoa nessa proibição visto que a Páscoa antecede a construção do tabernáculo no livro de Êxodo. Por isso, ainda hoje sacrificam na páscoa.

Já os Cristãos substituíram o sacrifício de animal por outros sacrifícios. Temos o corpo de Cristo na santa ceia como o sacrifício para perdão de pecados, em Romanos 12 Paulo fala do sacrifício da vontade (abnegação), e muitos Cristãos realizam atos de abnegação como sacrifício. Até em nossa língua usamos a palavra para expressar atos que precisam de um certo esforço e não queremos fazer a princípio.

Thursday, May 11, 2017

Conceito de Vida e Morte


Primeiramente para entender o conceito da morte na Bíblia Hebraica devemos entender o conceito de vida. Em Gên 2:7 temos a maneira como Deus cria o homem. ALMA (VIDA, SER VIVENTE)= pó da terra+fôlego de vida (sopro de Deus). Assim alma é o mesmo que um ser humano vivo. Esse conceito não dever ser confundido com o conceito de psyche (Gr.alma) em Platão que influenciou a filosofia e infelizmente a maioria do Cristianismo. Isso fica claro na definição de morte. Ecl.12:7 – MORTE = separação entre pó da terra e fôlego de vida.

O que é o fôlego de vida? Jó 27:3 e outras passagens mostram que RUACH ELOHIM (Heb. vento de Deus, espírito de Deus) é algo divino que gera vida. Em Gên 1 é o sopro/vento/palavra de Deus que cria. Em João 1 Jesus/Palavra de Deus é identificado como o Criador.

O que é a morte? Gen 2:17 afirma que morte é o resultado da desobediência a Deus (o Criador). Isa 59:2, Eze 18:4, I Jo 3:4, Rom 6:23 e outras passagens mostram a mesma ideia. VIDA=conexão com Deus; MORTE = Desconexão com Deus – Desobediência. Assim o livro de Deuteronômio coloca as bençãos (vida-obediência) e maldições (morte-desobediência) baseado na relação da humanidade com Deus. O NT ensina o mesmo mostrando que sem submissão a Cristo não há vida (e.g. Jo 14:6,7, 15:5-10).

Como vida é existência, morte é inexistência. Veja Sal.6:5, 115:17, 146:4, Ecl 3:19-20, 9:4-10. Deve ser por isso que Jesus compara a morte com o sono (Jo 11:11,14) pois não há atividades e lembranças.

O conceito de que a humanidade pode existir sem Deus foi primeiro introduzido na Bíblia pela serpente em Gen 3:4-5 ao contrário da Palavra divina (2:17). Foi Satanás (Apoc 12:9) que inventou a “mentira” que há vida sem o CRIADOR. Assim a noção de que há vida após a morte sem obediência a Deus é atribuida ao inimigo de Deus. Em Dêut 18:9-14 e Isa 8:19-20 isso é bem claro. É a Lei e os Profetas que devem ser consultados acerca de assuntos pertinentes a vida e não necromantes (comunicação com os “mortos”). Visto que os mortos não existem.

Então por que tal proibição? Por que assim como a serpente-Satanás mentiu para Eva assim os inimigos de Deus continuam sua obra de engano ensinando que existe vida após a morte sem Deus mesmo personificando mortos ou anjos – mensageiros de Deus (I Cor 10:19,20, II Cor 11:13-15, Mat 4:1-11, Apoc 13:13-14).

A Bíblia no entanto ensina que por meio de Cristo existe vida após a morte aos que aceitarem a Jesus. Na Bíblia Hebraica isso não está tão claro. Temos indicações que na era messiânica haveria a promessa da ressurreição (e.g. Jó 19:25,26, Isa 65-66, Eze 37, Dan 12:1-2). Isso é deixado mais claro no NT – Jo 3:16, 5:28,29, 11:23-27, I Cor 15:51-54, I Tes 4:15-18, Apoc 15:13, 20:6 – o que essas e outras passagens ensinam é que na vinda do Messias (2ª vinda de Jesus) os seres humanos salvos pela fé em Jesus serão ressuscitados e reinarão com o Senhor. Não antes (Atos 2:34, II Tim 4:6-8, Apoc 22:12).


Obviamente esse é um estudo introdutório. Para mais informações verificar outro materiais. Os que mais recomendo é Oscar Cullman Imortalidade e Ressurreição ; Samuelle Bacchiocchi Imortalidade e Ressurreição

Thursday, April 27, 2017

Jâmnia e o cânon, existia uma Bíblia na época de Jesus?

Quinta é dia de pergunta e resposta aqui no forum. Toda semana publico uma resposta mais elaborada sobre perguntas enviadas por alunos ao meu email. Se deseja sua pergunta respondida aqui, por favor, me envie pelo email rodrigog@eteachergroup.com 


Então, Jâmnia (Yabne; Yavneh) é primeiramente mencionado em escritos rabínicos pelos menos 1 século após o tal evento e a melhor descrição está no Talmud Gittin 56b.De acordo, com a teoria tradicional espalhada por Heirich Graetz em meados de 1870 os relatos rabínicos falam de um debate entre os rabis sobre ALGUNS livros bíblicos que eram considerados impuros por uns e não por outros (Cantares, Eclesiastes e se não estou enganado depois Crônicas e Ester) - ver passagem na Mixná Yadaim 3:5. Então Graetz baseado em passagens como essas que mencionam de decisões acerca de livros da bíblia e da passagem do Talmud Gittin sobre Jâmnia (cidade perto de Tel Aviv hoje) sugeriu que o Cânon foi "definido" num CONCÍLIO EM JÂMNIA... 

Mas até onde sabemos não haviam concílios rabínicos nesse período como é o caso do Cristianismo principalmente no II-IV século (onde questões doutrinárias foram definidas). Hoje mais e mais estudiosos crêem numa pluralidade "canonica" nas várias seitas Israelias nos primeiros séculos da nossa era Os estudos de Jack Lewis e Jacob Neusner mostram que o cânon da Bíblia Hebraica conforme nós temos hoje foi aceito pela maioria dos Judeus apenas após o IV ou talvez V século. 

No entanto não devemos ignorar a influência que o Cristianismo (e outras seitas Israelitas) tiveram na formação do Judaísmo rabínico (e virse versa). por exemplo, recentemente um estudioso de Qumran sugeriu no volume de 50 anos após Qumran (em breve consigo essa bibliografia) que a estrutura dos livros da Bíblia Hebraica em contraste com a estrutura do Antigo Testamento (Cristao) é diferente por razões teológicas discutidas nos primeiros séculos do Cristianismo. Por exemplo, o livro de Daniel não é considerado parte dos PROFETAS, possivelmente porque os Cristãos o usava muito para argumentar o messianismo de Jesus (esp. Daniel 9). Assim, ao remover o livro de Daniel da categoria de profeta, o canôn Judeu sugere que ele não deve ser lido como uma literatura que prevê o futuro mas que olhar para o passado. Estrutura e categorização de literatura bíblical nesse caso é em si uma mensagem teológica.